Ensaio Audiovisual

Encurralado entre a vontade da discussão, do mergulho teórico, e a sedução (e toda a importância) da técnica, esse curso se resolve na tensão necessária entre todos os seus participantes. O mais provável (e previsível) é que, num primeiro momento, ao gosto evidente dos educadores pela teoria venha se opor a vontade dos educandos por trabalhar diretamente as técnicas e tecnologias da imagem, que o curso pretende investigar. A crescente facilidade com que as gerações mais novas lidam com as tecnologias de imagem e som (câmeras e gravadores digitais, programas de edição não linear, de manipulação de imagens, etc) os potencializam a serem também produtores e distribuidores, não mais apenas consumidores dessa informação. Faz-se aí mais do que necessário somar a esse domínio (convívio?) precoce da técnica uma reflexão crítica que os façam capazes de questionar e desconstruir o emaranhado de informações no qual nos encontramos, produzindo, por si só, a imagem crítica, a contra-informação. Esse processo torna-se bem sucedido, portanto, a medida em que consigamos eliminar, ou ao menos minimizar, essa enganosa oposição entre teoria e prática, construindo, com técnica e reflexão, um discurso audiovisual provocador, que venha carregado de acúmulo teórico e crítico.
Esse blog pretende ser uma ferramenta importante nesse diálogo entre os participantes, e entre e teoria e técnicas. Todos os envolvidos estão convidados a enriquecê-lo com imagens, vídeos, idéias e comentários tendo por eixo as discussões levantadas a partir da sala de aula.


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15/04/2009

Babilônia 2000

O documentário mostra o último dia do ano de 1999, na virada do milênio nas comunidades Chapéu Mangueira e Babilônia, acompanhando o último dia de alguns moradores e quais eram suas expectativas para o próximo ano. Essas duas favelas são as únicas de Copacabana onde acontece, na praia, a famosa queima de fogos na virada do ano e talvez esse tenha sido um dos motivos para a escolha dos locais.O diretor Eduardo Coutinho e sua equipe sobem o morro para retratar um fragmento da sociedade, a partir de um ponto de vista muito peculiar e característico do diretor. Pois ele acredita que as coisas devem ser mostradas como elas são ou como as pessoas que fazem, queiram que elas sejam. É comum no seus filmes, aparecerem coisas que seriam editadas como por exemplo microfone;imagens fora de foco; enquadramento mal feito e tudo mais que é considerado sujeita,mas que transmite uma realidade( no sentido de verdade, não editado) maior.

Para não entrar na discussão de realidade no cinema, a qual é muito complexa e nem é o meu objetivo aqui, falarei sobre o documentário em si. Ele dá uma visão diferente daquela que estamos acostumados a ver, pois essa visão de favela e morro dado no documentário é a visão dos moradores que sem querer, ao longo da entrevista, acabam entrando nesses assuntos como violência, religião, política e a própria visão de cinema , e gravação que as pessoas tem. Por exemplo, umas das entrevistadas pergunta se ela precisa se arrumar, se o filme vai passar nos EUA e quando o Coutinho responde que não ela pergunta afirmando( se isso for possível) se ele( o diretor) quer pobreza.Repare que ela e todos esses moradores entrevistados tem a exata noção da posição social que a sociedade os coloca e como ela lida de maneira tão natural com essa situação.Nessa cena isso fica evidente.

Outro aspecto notável é como o diretor consegue direcionar a conversa de uma maneira tão sutil, mas ao mesmo tempo sem manipular os fatos e as falas das pessoas, fazendo com que elas falam coisas do cotidiano e que são tratadas sem o menor sensacionalismo por parte do diretor. Isso pode até parecer tendencioso, mas como o documentário é linear, ou seja foi gravado e editado na ordem dos acontecimentos, não há maneira de agrupar ou de direcionar muito o olhar, mesmo todo o documentário sendo um ponto de vista.

Nos últimos momentos do filme, aparece à queima de fogos e tudo que o filme queria mostrar parece que estava ali, sendo sintetizado naquele momento: a simplicidade das pessoas, a ‘naturalidade’ diante das câmeras e diante de uma equipe que naquele momento passou a fazer parte da família das pessoas que estavam presentes. Na ultima cena, um senhor convida as pessoas para conhecerem a favela, para que haja uma maior interação entre asfalto e o morro.Isto nos revela como aquelas pessoas que moram na favela e que por vezes são padronizadas e até mesmo julgadas de maneira inconsciente e preconceituosa são pessoas comuns como eu e você que passam pelas mesmas dificuldades , sentem as mesmas alegrias e tristezas e que só querem um pouco mais de espaço numa sociedade excludente e preconceituosa.

2 comentários:

  1. Acho q a Mariana conseguiu expor de maneira bem clara o que foi discutido na aula. Destaco aqui uma dessas discussões da aula, e que foi muito bem explicada pela Mariana,que é a questão do ponto de vista de um documentário e de sua construção. No caso do documentário "Babilonia 2000" é possível observar uma singularidade, diferença, em relação aos documentários convencionais, os quais através do processo de edição (por exemplo)tendem a passar a visão do diretor sobre o objeto discutido.

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  2. O comentário acerca do filme me pareceu bom, ressaltando o aspecto peculiar do tema. De fato, retratar a expectativa da virada do milênio para os moradores de uma favela, é uma boa forma de expor a visão daqueles que são colocados à margem da ''sociedade''. Porém , acho que faltou ao texto mencionar a opinião dos entrevistados. Estes, em sua maioria, me parecem descrentes de que a virada do milênio pudesse transformar a realidade na qual vivemos. Para eles, 2000 chegou como qualquer outro ano.

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