Ensaio Audiovisual

Encurralado entre a vontade da discussão, do mergulho teórico, e a sedução (e toda a importância) da técnica, esse curso se resolve na tensão necessária entre todos os seus participantes. O mais provável (e previsível) é que, num primeiro momento, ao gosto evidente dos educadores pela teoria venha se opor a vontade dos educandos por trabalhar diretamente as técnicas e tecnologias da imagem, que o curso pretende investigar. A crescente facilidade com que as gerações mais novas lidam com as tecnologias de imagem e som (câmeras e gravadores digitais, programas de edição não linear, de manipulação de imagens, etc) os potencializam a serem também produtores e distribuidores, não mais apenas consumidores dessa informação. Faz-se aí mais do que necessário somar a esse domínio (convívio?) precoce da técnica uma reflexão crítica que os façam capazes de questionar e desconstruir o emaranhado de informações no qual nos encontramos, produzindo, por si só, a imagem crítica, a contra-informação. Esse processo torna-se bem sucedido, portanto, a medida em que consigamos eliminar, ou ao menos minimizar, essa enganosa oposição entre teoria e prática, construindo, com técnica e reflexão, um discurso audiovisual provocador, que venha carregado de acúmulo teórico e crítico.
Esse blog pretende ser uma ferramenta importante nesse diálogo entre os participantes, e entre e teoria e técnicas. Todos os envolvidos estão convidados a enriquecê-lo com imagens, vídeos, idéias e comentários tendo por eixo as discussões levantadas a partir da sala de aula.


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22/12/2009

Resenha - Nascidos em Bordéis: A experiência artística com crianças



“É minha lei, é minha questão

Virar este mundo, cravar este chão

Não me importa saber

Se é terrível demais

Quantas guerras terei que vencer

Por um pouco de paz”

(Sonho Impossível, Chico Buarque)


O mundo – a nossa vida, a realidade que nos cerca, os diferentes rostos e vozes das pessoas em outras nações. Aqui estamos, diante de tudo que o homem pode construir, nos movendo entre as coisas que foram erguidas pela mente humana, sem nem mesmo reconhecê-las como tal: carro, apartamento, roupa, religião, arte, trabalho, miséria. Sim, miséria, que surge como resultado das decisões que tomamos erradas, que se ergue como uma muralha, mas não como um rochedo: que foi feita pelas mãos humanas.

A miséria construída nos descontrói, nos desfigura – desconhecemos nossos irmãos, desconhecemos a nós mesmos, ninguém sabe os limites da miséria. E então nos prostramos, temos braços e pernas mas não nos movemos contra a miséria, quanto o abandono: abandonamos também. Observamos somente, fotografando com olhos fotofóbicos a luz de uma realidade que corta como navalha.

A não ser que a fotografia seja o olhar não de manutenção da realidade – miserável – mas sim de interferência. Chega um tempo em que se cobra mais da arte, cobra-se que ela seja mais do que somente a leitura ou o registro de um tempo: cobra-se que ela tome parte neste tempo, que seja início de movimento, de atuação.

Este é talvez um dos maiores méritos do filme Nascidos em Bordéis, de 2004, dirigido por Zana Briski e Ross Kauffman. Em um filme com este título, há muito que podemos esperar. Há uma certa expectativa macabra de encontrarmos a visão que, bem, somente vê – o documentário cuja câmera não quer estar realmente ali, quer ver sem ser vista, cuja presença de toda uma equipe de produção cinematográfica tenta interferir no mínimo possível na vida dos indivíduos que documenta.

Teríamos então mais uma bela e triste exibição do que pode ser a miséria, de como crianças ao redor do mundo podem sofrer todo o tipo de abuso, de como estamos distantes. Pois se até mesmo a câmera está distante, se a fotografia que vemos é impessoal, como podemos chegar até o outro, até a criança, como podemos tocar a miséria? Pois tocá-la é essencial se queremos modificá-la. Observá-la sem voz apenas a fará maior.

Não é assim, porém, que Nascidos em Bordéis se estrutura. Apresenta-se sim, a miséria e o abuso: lá estão as crianças violentadas pela prostituição materna, pelo descaso, pela pobreza extrema. Essas crianças, entretanto, são mais do que somente as filhas da prostituição. É simples, na verdade, como podemos deixar de vê-los como as vítimas da opressão e enxergá-los como algo mais – são artistas em potencial.

“Tia” Zana nos mostra que sua câmera estava sim presente, e que não é possível realizar uma imagem imparcial, uma vez que sua presença faz toda a diferença. Esta diferença, a interferência na realidade alheia que tantos documentários tentam reduzir a um mínimo, não somente é real mas também desejada. Ela é o material no qual o documentário se estrutura, no qual ele acha a fonte para se tornar o que é. A presença de algo tão exterior na vida das crianças é o que permite que o filme se realiza, mas é também o que dá motivo para ele se realizar.

Então veremos como a fotógrafa irá interagir com as crianças, trazendo exatamente a fotografia para as suas vidas. Não como algo que elas devem ver de longe, mas sim algo que elas podem tocar, criar.

É impossível, ao lembrarmos deste aspecto do filme (de como a diretora introduziu a arte entre as crianças com uma realidade tão avassaladora) não nos lembramos também de parte da obra Hipótese-Cinema, de Alain Bergala.

Em sua obra, Bergala, entre outras coisas, ilumina quais podem ser as dificuldades enfrentadas por um professor que deseja trazer a realização de um filme para o cotidiano escolar, além de colocar de que formas este empreendimento pode ser mal ou bem conduzido.

De certa formar, a realização do “experimento” – ou melhor dizendo, da experiência – de Zana com fotografia e crianças foi bem próxima a fala de Bergala, já que ambas (filmagem e fotografia) são fazeres artísticos, e em ambos os casos se referem a especial situação de expor este fazer as crianças.

Vemos, então, como a situação ideal que Bergala expõem em seu livro (ideal para que as crianças possam de fato ter a experiência do fazer artístico) é trazida para a tela pelo filme de Zana. É entregue as crianças do bordel máquinas fotográficas, e lhes é permitido liberdade para fotografar o que desejarem, da forma que acharem melhor, segundo suas próprias justificativas, sem que estas precisem ser expostas. Mais tarde, ao examinar as fotografias, Zana trará para a discussão questões como foco, enquadramento, cores e luz. Haverá também o momento para que se decida quais imagens são boas e quais não o são. Em outras palavras, foi dado as crianças o direito de tomar as próprias decisões com relação as suas imagens, o que é essencial ao fazer artístico, mas foi também lhes passada a necessidade de pensar a fotografia e de conhecer seus conceitos teóricos, além do fazer.

Mesmo havendo a exposição do resultado do trabalho das crianças – o que, em certa medida, Bergala critica em sua obra – sabemos instintivamente que este resultado não era o principal objetivo. Afinal, foram rolos e rolos de filmes, que eventualmente retornavam em branco, queimados (ambas as situações aparecem claramente no filme) ou simplesmente não teriam fotos que pudessem ser consideradas “artísticas”. Entretanto, para a caminhada que estas crianças realizavam, tais rolos foram de igual – se não maior – importância que aqueles dos quais saíram as fotos utilizadas em exposições mais tarde.

Foi uma caminhada difícil, claro, e seria impossível pensar de forma diferente. O fazer artístico, dentro do que se erguia ao redor daquelas crianças, poderia ser considerado próximo a nada. Entretanto, foi este fazer que pode começar a destruir a muralha de miséria que se erguia ao redor delas.

E exatamente pela improbabilidade de que um movimento como este rende frutos, que se torna mais especial ao vermos a beleza das fotografias das crianças, da fé em seus futuros, da arte que nasce do local que outros diriam ser impossível. Pois, em certo ponto, esta deve ser a questão de todos: buscar modificar o que parece imodificável, lutar contra o que parece ser maior do que nossas forças, tentar destruir o que nos destrói como seres humanos, para que, mais tarde, o mundo possa – orgulhosamente – ver uma flor brotar do impossível chão.


Thatiana Victoria dos Santos Machado Ferreira de Moraes.

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